Lugar de mulher é onde ela quiser! Muito antes de essa frase se popularizar, três motoristas de veículos pesados de Barueri já colocavam o pé na estrada em um setor predominantemente masculino, sem se intimidar com os preconceitos que, mesmo após décadas, ainda não desapareceram completamente.
Tudo começou no início dos anos 1990, quando Eliane de Oliveira Marques (53 anos), Eliete de Oliveira Marques Martins (52) e Eleny de Oliveira Marques (47) decidiram seguir a mesma profissão do pai, Domingos Bertolino Vieira Martins, caminhoneiro hoje com 78 anos. Em seus carretos e viagens, elas costumavam acompanhá-lo na boleia e acabaram se apaixonando pela atividade.
“Papai sempre confiou na gente, mas tinha receio de que fôssemos maltratadas por outros motoristas e pelos colegas de trabalho. Os colegas nos respeitam, mas no trânsito ainda somos insultadas. Fingimos que não é conosco. Amamos nossa profissão e fazemos o melhor que podemos no dia a dia, com muita atenção e dedicação”, revelam.
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As trajetórias
Eliane dirige caminhões de médio porte há seis anos, transportando as cestas do projeto Horta da Gente, da Secretaria de Assistência e Desenvolvimento Social (Sads), para famílias atendidas em Barueri. Ao longo da carreira, já transportou tratores e conduziu uma equipe de mulheres responsável pela manutenção de áreas verdes.
Eliete dirige um caminhão modelo 10-160, veículo de grande porte usado no transporte de ferramentas e equipes de alvenaria responsáveis por reformas em diversos logradouros públicos. Ela também já passou pelo caminhão cata-cacareco, pelo de limpeza de bueiros, de remoção de entulhos e pela marcenaria de Barueri, que monta tablados para eventos da Prefeitura e reforma portas e móveis danificados em escolas e outros prédios municipais.
Eleny conduz caminhões que realizam a coleta noturna de lixo na cidade. A função exige habilidade e atenção constantes para garantir a segurança dos coletores e minimizar impactos no trânsito. Ela também trabalhou por vários anos no caminhão-pipa, atividade que exige, além da CNH categoria D, destreza para subir a alturas de até 3,5 metros para abastecer o veículo, que comporta milhares de litros de água.
Desafios e reconhecimentos
“Muita gente ainda se surpreende quando nos vê no volante”, conta Eliane. “Nas rodovias, o espanto é maior porque há pouquíssimas mulheres lá”, complementa Eliete. “Os colegas que ainda não conhecem nosso trabalho passam a nos admirar em pouco tempo porque reconhecem a nossa competência”, arremata Eleny.
As irmãs também destacam um momento que consideram especial no cotidiano das estradas. “Nossa maior satisfação é quando oferecemos ajuda a motoristas que estão em dificuldades nas ruas. Geralmente as mulheres nos recebem com um sorriso no rosto; os homens, nem sempre”, contam.
“Elas também ressaltam que o preconceito sobre mulheres ao volante não corresponde à realidade. “Esse preconceito de que as mulheres dirigem mal não tem razão de ser. Nós nunca recebemos uma multa sequer e, além disso, muitas seguradoras oferecem descontos para mulheres motoristas justamente por reconhecerem que elas costumam ser mais responsáveis no trânsito”, afirmam.
Família de motoristas
A profissão acabou se espalhando pela família. Um irmão delas, Ed Carlos, proprietário de uma empresa de aluguel de caçambas para entulho, também dirige caminhões. O exemplo influenciou outros parentes, como Renan (33 anos) e Caio (30), filhos de Eliete, que hoje são motoristas profissionais. Bruna, de 32 anos, também é habilitada.
Um cunhado delas, Marcos Sato, também atua como motorista de caminhão em Barueri. Eliane, Eliete e Eleny já são avós e veem a família crescer com seis netos — Miguel, Théo, Joana, Hugo Henrique, Maria Luíza e Ravi. Por enquanto, a nova geração apenas acompanha com curiosidade as histórias das estradas contadas pelas avós.
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